quarta-feira, 6 de maio de 2026

Mediano

Percebi hoje que eu não sou aquela pessoa de grandes ambições ou grandes dificuldades, não tenho grandes qualidades e tão pouco grandes defeitos. Não sou dos mais inteligentes e nem dos mais imbecís, nem forte e nem fraco, ou de beleza estonteante ou feiúra exagerada, estou pelos meados. Posso dizer que sou cabível, caibo em diversas situações, já que não sou dos mais desagradáveis, nem dos mais indesejáveis, sou agradável mas nunca na vida agradei a todos. Não sou dos mal educados, porém não sei as mais finas regras de etiqueta. Mas o mundo nunca esteve atrás dos grandes, e sim dos cabíveis, de peças e engrenagens do formato certo para movimentar de maneira regrada o mercado e a sociedade; o mundo detesta os que chegam à demasia do ser, exila os artistas, os ignora por um tempo, e talvez os coloquem nas pequenas notas dos livros didáticos como alguém que seguiu uma tendência inovadora, e porfim foram colocadas em decadentes quadradinhos de papel que outrora fomos obrigados a aprender para depois esquecer. Como era mesmo o nome daquela escritora que escrevia de um jeito esquisito, que também era da mesma época daquela pintora que fora certa vez esculhambada por aquele outro artista jornalista?! Ah... de nada vale mesmo conhecer demais sobre o que não é necessário para passar nas provas ou entrevistas de trabalho, engessadas e roteirizadas. "Qual é o seu objetivo na empresa?" "Em que escola literária está situada a obra de Machado de Assis?" Na verdade não importa, e você só precisa estar adequado e apresentável. E os grandes heróis, assim como os grandes vilões, somente existem nas telas e nas páginas, para onde fogem os medíocres seres reais, como eu ou quem esteja lendo... Ela, aquela professora, dizia... "Seja educado, simpático, mantenha a coluna ereta, não fale quando os outros estiverem falando!" Quando será a minha hora de falar? Já passei da hora? Estou adiantado? Vou manter o braço levantado... talvez seja isso, abaixei o braço e as expectativas, não seinto vontade de ter aquele exagerado e caro carro ou aquela mansão nas ilhas... como se chamam mesmo?! Ah é... já não me importo. Eu não caberia naqueles quartos ou naquela piscina que parecia ser cortada ao meio, virada para o mar. Não por ser grande demais, os pequenos não cabem no mundo, os medianos não cabem nos lugares dos grandes e os grandes sempre estiveram lá, garantindo que os sonhos da maioria sejam de estar lá com eles, e também garantido que isso nunca aconteça. Não contente, mas conformada segue a massa a movimentar as engrenagens da vida, regrada, legislada, e pronta para substituição de cada um, na romaria da vida, nessa caminhada sem sentido que começa ao nascer e termina junto com a vida.